Santa Filomena em Portugal

Palavra Dominical - Partilha do Diretor Espiritual

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24º Domingo do Tempo Comum – Ano A 2026


Ideia principal: A Palavra de Deus deste Domingo, o 24º do Tempo Comum, convida-nos a perscrutar a lógica de Deus no modo como perdoa… sempre, sem cálculos e sem medida, porque nos ama porque nos ama: gratuitamente, até ao fim! Quem se deixa dominar por maus sentimentos, como a ira e o rancor, será que pode esperar o perdão de Deus? Oportuno o ensinamento de São Paulo: o amor, o respeito pelo outro, a aceitação das diferenças, o perdão.


LEITURA I - Livro de Ben-Sirá 27,33-28,9


O rancor e a ira são coisas detestáveis, e o pecador é mestre nelas. […]
Um homem guarda rancor contra outro e pede a Deus que o cure?
Não tem compaixão do seu semelhante e pede perdão para os seus próprios pecados? […]
Lembra-te do teu fim e deixa de ter ódio; pensa na corrupção e na morte, e guarda os mandamentos.


- Jesus Ben Sira, dando-se conta que o helenismo estava a ser cada vez mais “normalizado” pelos judeus, sobretudo os mais jovens, escreveu o Livro de Ben-Sirá, Sirácida ou Eclesiástico, um compêndio da verdadeira “Sabedoria”, contida na “Torah”, por revelação de Deus; por isso, superior à sabedoria dos gregos. Escreve-o em hebraico, por volta do ano 180 a.C.; um seu neto traduziu-o para grego, no ano 130.

- O homem sábio não se deixar dominar pelo rancor, pela ira e por sentimentos de vingança. Estes sentimentos são abomináveis e criam uma barreira impenetrável na relação entre Deus e o homem, ou, pelo menos, deterioram essa relação. O amante da verdadeira Sabedoria, aquele que pretende ter êxito e ser feliz, vive em comunhão com Deus, é capaz de perdoar as ofensas e de ter compaixão pelo seu semelhante.

- Sirácida não condena os referidos maus sentimentos apelando, como por vezes faz, a valores humanos… condena-os por motivos religiosos. O pensamento da morte coloca-nos na presença Deus, que sempre perdoa. Por isso, alimentar em nós o rancor e a ira, deveria fazer-nos cair na conta da nossa estupidez. Em boa verdade, quem poderá esperar um dia o perdão de Deus, quando vive na lógica do ódio e de vingança?


II Leitura - Epístola aos Romanos 14, 7-9


Irmãos: Nenhum de nós vive para si mesmo e nenhum de nós morre para si mesmo.
Se vivemos, vivemos para o Senhor, e se morremos, morremos para o Senhor. […]
Na verdade, Cristo morreu e ressuscitou para ser o Senhor dos vivos e dos mortos.


- A 2ª Leitura volta a ser da 2ª parte da Carta aos Romanos: três versículos de uma perícopa (Rom 14, 1-12) em que em que Paulo dá algumas indicações acerca da conduta a ter face aos outros membros da comunidade, já que, segundo o autor, aqueles são de dois tipos: os "fortes" e os "débeis". Sendo que os “fortes” estão focados no essencial, no Evangelho; enquanto os “fracos”, ou “tradicionalistas”, são os que ainda não se libertaram da escravidão da Lei, dos ritos e das tradições. Há tensão entre dois grupos que se concretiza em quezílias várias que Paulo reprova. É neste contexto que se encaixa o ensinamento de hoje.

- Paulo, que se identifica mais com os “fortes”, recomenda a estes que tenham paciência para com as fraquezas dos débeis. A uns e a outra recorda os princípios da caridade e o direito à liberdade de consciência, pelos quais um cristão, deve pautar o seu agir.

- Sobretudo, procure cada um proceder de forma a agradar a Deus. Ou seja, Paulo convida à mesma atitude religiosa a que apelam tanto o Evangelho como a 1ª Leitura: o sentido da nossa vida depende da nossa relação com Deus; e está ligado ao sentido da morte. O mistério pascal é o remate da existência dos cristãos.


EVANGELHO – Mateus 18,21-35


«Se meu irmão me ofender, quantas vezes deverei perdoar-lhe? Até sete vezes?»
Jesus respondeu: «Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete.
[…] Então o servo prostrou-se a seus pés, dizendo: 'Senhor, concede-me um prazo e tudo te pagarei'. Cheio de compaixão, o senhor daquele servo deu-lhe a liberdade e perdoou-lhe a dívida.
Ao sair, o servo encontrou um dos seus companheiros que lhe devia cem denários.
Segurando-o, começou a apertar-lhe o pescoço, dizendo: 'Paga o que me deves'.
[…] 'Servo mau, perdoei-te, porque me pediste.
Não devias, também tu, compadecer-te do teu companheiro, como eu tive compaixão de ti?'


- O mandamento do perdão não é novo. A novidade está no até setenta vezes sete… (o número sete, na cultura semita, indica “totalidade”). A obrigação de perdoar, limitada entre os membros do Povo de Deus, e, ainda assim, sem exageros, com conta peso e medida, era aceite pelos “mestres” de Israel. A discussão era até quantas vezes se podia perdoar ao outro. É nesta questão – complicada! - que Pedro envolve Jesus.

- Jesus, bom pedagogo, desce ao nível de Pedro e conta uma história de cortar a respiração… do Rei [Deus] que chama um servo que tem para com ele uma enorme dívida. Face à dívida do servo, num montante superior à totalidade do dinheiro que então circulava no país inteiro, que faz o Rei? Dá um prazo, ou mostrar-Se impiedoso? Eis a incrível resposta de Deus: deu-lhe a liberdade e perdoou-lhe a dívida.

- O servo não procedeu assim para com um seu devedor. O Rei indigna-se, chama-o de novo, e entregou-o aos verdugos. Estranho… será que Deus paga na mesma moeda? Não. Trata-se de uma narração dramática. A intenção do pregador não é dizer o que Deus fará no final, mas aquilo que o homem deve fazer, agora! Agora deve agir como Deus age… não é um conselho piedoso, mas uma condição para a entrada no Reino.


Rezar a Palavra


Pai misericordioso, eu Vos louvo e bendigo pelo Evangelho deste Domingo que revela a pedagogia da misericórdia que sempre usais connosco, vossos filhos. Dou-Vos graças pelo perdão que sempre me concedeis, e peço-Vos que, convosco, Pai Santo, aprenda a perdoar. Que o perdão acolhido e praticado, reconstrua as comunidades cristãs submetidas ao ciclo infernal do ódio, do despeito e da vingança. Amem.


Cónego Armando Duarte
13 de setembro de 2026