Santa Filomena em Portugal

Palavra Dominical - Partilha do Diretor Espiritual

banner

27º Domingo do Tempo Comum – Ano A 2026


Ideia principal: O Povo de Jahwéh tem de deixar-se transformar pelo amor sempre fiel de Deus e produzir os frutos bons que Deus aprecia. Porém, por parte dos líderes judaicos a resposta foi um desastre… apropriaram-se da "vinha de Deus", recusando-se a oferecer a Deus os frutos que Lhe eram devidos. Paulo exorta os Filipenses a viver na alegria e na serenidade, respeitando o que é verdadeiro, nobre, justo e digno. São os frutos que Deus espera dos Filipenses e de todos os que fazem parte da Sua “vinha”.


LEITURA I – Profecia de Isaías 5,1-7


Vou cantar, em nome do meu amigo, um cântico de amor à sua vinha.
O meu amigo possuía uma vinha numa fértil colina. […] Quando eu esperava que viesse a dar uvas, porque é que apenas produziu agraços? Agora vos direi o que vou fazer à minha vinha:[…] vou demolir-lhe o muro e será espezinhada […] A vinha do Senhor do Universo é a casa de Israel […].


- Isaías, filho de Amós, foi profeta em Jerusalém de 740-739 a.C. até perto de 700 a.C.. Nesses quase 40 anos, sucederam-se vários reis em Judá. O primeiro período do seu ministério coincide com o reinado de Jotão (740-734 a.C.), sendo desse período o texto hoje lido. Na cultura judaica, a "vinha" é um símbolo do amor… o "cântico da vinha" é uma "cantiga de amor", que descreve os esforços do jovem apaixonado para conquistar a sua amada. Isaías recorre a ela para transmitir a mensagem que Deus lhe confiou.

- O jovem enamorado é o agricultor, a mulher da sua vida, é a sua vinha. O profeta usa o poema, considerado uma das obras-primas da literatura mundial, e imagina ser o amigo deste agricultor que não descurou nada do que podia ser feito pela sua vinha: nem atenção, nem cuidados, nem esforço.

- Na verdade, o Senhor da vinha é Deus… que poderia Deus fazer pelo Seu povo – a Sua vinha – que não tivesse feito? Todavia, a vinha assim amada e cuidada, produziu agraços em vez de uvas doces e saborosas. O cântico acaba numa lamentação, num quase impropério: “Deus esperava retidão e só há sangue derramado; esperava justiça e só há gritos de horror” (v.7). É o lamento de um amante não correspondido.


LEITURA II – Filipe 4, 6-9


Irmãos: […]em todas as circunstâncias, apresentai os vossos pedidos diante de Deus,
com orações, súplicas e ações de graças. […] Quanto ao resto, irmãos, tudo o que é verdadeiro e nobre,
tudo o que é justo e puro, tudo o que é amável e de boa reputação,
tudo o que é virtude e digno de louvor é o que deveis ter no pensamento […].


- O texto proposto neste domingo pertence à parte final da carta enviada pelo Apóstolo Paulo aos cristãos da cidade grega de Filipos. Paulo está preso em Éfeso, sem saber se será posto em liberdade ou condenado à morte, mas está tranquilo. Como ele próprio recomenda aos destinatários da carta, o cristão deve viver na alegria, enfrentando a vida sem medo e sentir-se seguro nos braços amorosos do Pai.

- Onde encontra o discípulo a capacidade para estar tranquilo no meio das maiores provações? Na oração! “Em todas as circunstâncias […], orações com súplicas e ações de graças” (v 6). A oração não é uma vaga união a Deus, mas deve ser concreta, com súplicas e ações de graças; também não se deve estar reservada para determinadas ocasiões ou circunstâncias, ou a alguns momentos do dia… deve ser constante!

- Naquele que reza, as aflições dão lugar à alegria, que não tem nada a ver com gargalhadas frívolas ou otimismos irritantes… é o estado normal de quem, nesta comunhão de vida com Deus, vai naturalmente cultivando as virtudes morais naturais: a verdade, a nobreza, a justiça, a pureza, a amabilidade e a boa reputação. Paulo convida os filipenses a porem em prática estas recomendações, seguindo o seu exemplo.


EVANGELHO – Mateus 21, 33-43


Naquele tempo, disse Jesus aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos do povo:
“ […] Por fim, mandou-lhes o seu próprio filho, dizendo:
‘Respeitarão o meu filho’. Mas os vinhateiros, ao verem o filho, disseram entre si:
‘Este é o herdeiro; matemo-lo e ficaremos com a sua herança’.
E, agarrando-o, lançaram-no fora da vinha e mataram-no.
Quando vier o dono da vinha, que fará àqueles vinhateiros?».
Eles responderam: «Mandará matar sem piedade esses malvados e arrendará a vinha
a outros vinhateiros, que lhe entreguem os frutos a seu tempo». Disse-lhes Jesus:
«Nunca lestes na Escritura: ‘A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular; tudo isto veio do Senhor e é admirável aos nossos olhos’?
Por isso vos digo:
Ser-vos-á tirado o reino de Deus dado a um povo que produza os seus frutos».


- Jesus recorre à imagem da vinha – alvo do amor embevecido de Deus – para descrever a obra de Deus e a resposta do homem. Entram em cena vários personagens: a vinha é o Povo de Israel; o dono da vinha, é Deus; os vinhateiros são os destinatários da parábola; os servos, enviados em duas levas, são os profetas, antes e depois do exílio na Babilónia; o último enviado, também ele morto, salta à vista que é Jesus.

– Os vinhateiros - os príncipes dos sacerdotes e aos anciãos do povo – são apanhados de surpresa pela pergunta de Jesus: “Quando vier o dono da vinha, que fará àqueles vinhateiros?” (v.40). Contudo, respondem convictos: “Mandará matar sem piedade esses malvados” (v.41). Mas a lógica de Jesus é outra… Não fará de conta que o mal não foi praticado; contudo, a intervenção de Deus não será para destruir os malvados, mas para que daquele mal surja a salvação: Deus ressuscitou o “filho” que os “vinhateiros” mataram, glorificou-o e constituiu-o “pedra angular” de uma nova construção.

- O “catequista” Mateus aproveita para exortar os cristãos – os novos vinhateiros - a que despertem, a que saiam do comodismo e se empenhem em produzir frutos verdadeiros que agradem ao “senhor” da “vinha”.


Rezar a Palavra


Bendito sejais, ó Deus, pelo amor que tendes pela vinha que plantastes. Qual a resposta da vinha ao amor com que a amais? Mais má, que boa… Faço parte desse Posso, Senhor! Nunca quis apropriar-me da vinha, mas os frutos não serão os desejados… Concedei-me a graça de me deixar amar por Vós, para que esse amor me transforme e, assim, a minha resposta seja mais coerente, verdadeira e comprometida. Amem.


Cónego Armando Duarte
4 de outubro de 2026

/