Santa Filomena em Portugal

NOVENA EM HONRA DE SÃO BARTOLOMEU DOS MÁRTIRES

De 9 a 17 de julho

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NOVENA EM HONRA DE SÃO BARTOLOMEU DOS MÁRTIRES

De 9 a 17 de julho

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Pelo sinal  ✞  da Santa Cruz, livre-nos Deus  ✞  nosso Senhor, dos nossos  ✞  inimigos. Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amem.

Oração ao Divino Espírito Santo

Vinde, Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fiéis e acendei neles o fogo do vosso Amor.
V/. Enviai o vosso Espírito e tudo será criado.
R/. E renovareis a face da terra.


Oremos: Ó Deus, que instruístes os corações dos vossos fiéis com a luz do Espírito Santo, concedei-nos, segundo o mesmo Espírito, conhecer as coisas retas e gozar sempre das Suas consolações.
Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo. Amem.

Ato de Contrição

Meu Deus, de todo o coração me arrependo dos meus pecados; odeio-os e detesto-os porque ofendem a vossa infinita Majestade e são causa da morte do vosso Divino Filho, Jesus Cristo, e da minha ruína espiritual. Proponho nunca mais cometê-los no futuro e fugir sempre das ocasiões de pecar. Senhor, tende misericórdia e perdoai-me.

Oração de São Bartolomeu dos Mártires

Senhor, os olhos da minha alma estão cegos, porque não vejo o que é bem e o que é mal. Os falsos bens deste mundo me parecem verdadeiros e grandes, e os verdadeiros do outro não estimo nem desejo com eficácia e, por isso, alumiai meus olhos para que veja as coisas como elas são: as vãs como vãs e as verdadeiras como verdadeiras, para que desprezando as vãs e amando as verdadeiras, mereça chegar à luz eterna. Amem

Oração para todos os dias da novena

São Bartolomeu dos Mártires, oh “Arcebispo Santo”, pai dos pobres e socorro dos aflitos, que nesta Paróquia (que na Paróquia dos Mártires) fostes batizado, intercedei por mim, ajudai-me a permanecer fiel à graça do Batismo, vivendo da fé que ilustrastes com os vossos ensinamentos e o testemunho da vossa vida. Alcançai-me de Deus a graça (formular a graça que se pretende alcançar na novena…) se aquilo que peço for para o meu melhor bem tendo em vista a bem-aventurança eterna. Amem.


Pai Nosso, Ave Maria, Glória.


V/. Jesus Misericordioso, que nos destes São Bartolomeu dos Mártires como modelo de bom pastor e poderoso intercessor.
R/. Jesus, eu confio em Vós!


Meditação, trecho bíblico e breve oração para cada um dos nove dias da novena

Meditação do 1º Dia: Deus o assinalou para uma missão icon-mostrar-texto.png icon-ocultar-texto


Da Carta aos Romanos (8, 28-30)
Ora nós sabemos que todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus, para o bem daqueles que, segundo o Seu desígnio, foram chamados. Porque, os que Ele conheceu na Sua presciência, também os predestinou para serem conformados à imagem de Seu Filho, para que Ele seja o primogénito entre muitos irmãos. E aqueles que predestinou, também os chamou e aqueles que Ele chamou também os justificou; e aqueles que justificou, também os glorificou.

Bartolomeu Fernandes do Vale nasceu a 3 de maio de 1514, em Lisboa, na freguesia dos Mártires. Reinava em Portugal o rei D. Manuel I e presidia à Igreja Universal o Papa Leão X. Bartolomeu usava o apelido “do Vale”, que era do avô. Era filho de Domingos Fernandes e de Maria Corrêa, abastados de bens e pessoas de muita fé: virtuosos, devotos e habituados a partilhar com os pobres.

O pequeno Bartolomeu nasceu com um sinal nas costas da mão direita: uma cruz, como se fosse pintada a pincel, que tinha uma flor de lis como remate de cada uma das quatro pontas, em tudo semelhante à insígnia dos Dominicanos. Prenúncio da vocação que um dia iria abraçar? Não raras vezes, Deus assinala aqueles que escolhe para tarefas especiais. Assim aconteceu também com São Carlos Borromeu que, com Bartolomeu, foi um dos protagonistas principais do Concílio de Trento: uma luz intensa tornou dia a noite em que nasceu no castelo de Arona, junto do lago maior da Lombardia.

O nosso Bartolomeu guardou com tanto recato aquele sinal que, quando faleceu, aos setenta e seis anos, só dele tinha conhecimento um cónego de Braga que havia sido seu fâmulo e que, logo após a morte de Bartolomeu, revelou o segredo a D. Frei Agostinho de Castro, na altura Arcebispo de Braga, que, por sua vez, antes das exéquias, mostrou a mão do santo Arcebispo aos seus confrades.

Outro facto extraordinário foi o recado daquele pobre a sua mãe… estava a mãe a amamentá-lo à porta da casa de Terrugem, no concelho de Oeiras, onde a família se havia refugiado para fugir à peste que grassava em Lisboa. Foi surpreendida por um mendigo que fez as alegrias do pequeno Bartolomeu: sorridente, parecia querer saltar-lhe para o colo. Entregue a esmola, o pobre dirigiu-se à senhora recomendando-lhe que tivesse grande cuidado na educação do menino; chegado à idade, deveria encaminhá-lo para as letras, pois lhe estava reservada uma importante missão na Igreja.

São Bartolomeu dos Mártires, fostes, desde o berço, alvo dos cuidados de Deus, e toda a vida vivestes na Sua total dependência; também eu transporto em mim as marcas do amor de Deus… ajudai-me, com a vossa intercessão e exemplo, a viver em estado de graça. Amem.

Meditação do 2º Dia: “Não há corpo fraco onde o coração é forte" icon-mostrar-texto.png icon-ocultar-texto


Do Primeiro Livro de Samuel (3, 1. 8-10)
O jovem Samuel, no templo, servia ao Senhor à vista de Heli. Naquela noite, enquanto dormia, o Senhor chamou Samuel pela terceira vez; e ele levantou-se, foi ter com Heli, e disse-lhe: “Eis-me aqui, pois me chamaste”. Então Heli compreendeu que Deus chamava o menino e disse-lhe: “Vai e dorme, e se te chamarem outra vez dirás: ‘Falai, Senhor, que o vosso servo escuta!’” E Samuel tornou a deitar-se no seu lugar. Então o Senhor veio, parou junto dele e o chamou como das outras vezes: “Samuel! Samuel!” E Samuel respondeu: “Falai, Senhor, que o vosso servo escuta!”.

Bem cedo, Bartolomeu sentiu o chamamento de Deus a uma vida mais perfeita. Não terá sido indiferente a esse despertar da vocação, aquele percurso de casa para a escola, que fazia com o seu avô, deixando-o na Igreja de Nossa Senhora dos Mártires, para que ele pudesse participar na santa missa. Ao domingo e dias de preceito passava as manhãs na companhia dos frades Dominicanos que, na igreja dos Mártires, sede da mais antiga Paróquia situada fora dos muros da cidade, celebravam missa, ensinavam doutrina e confessavam. Bartolomeu ouvia com gosto a doutrina, admirava os hábitos brancos dos frades e estava-lhes cada vez mais afeiçoado. Aos frades, por sua vez, não passava despercebido o comportamento daquela criança e, por isso, recomendaram a seu pai que favorecesse aquela possível vocação à vida religiosa.

Assim, ainda antes de completar os 15 anos de idade, Bartolomeu dirigiu-se pelo seu próprio pé ao convento de São Domingos de Benfica. Era o dia de São Martinho de 1528. Recebeu-o o prior, Frei Jorge Vogado, a quem tímida, mas reverentemente, expôs o seu desejo. De imediato, Frei Jorge, sacerdote experimentado, que durante muitos anos foi pregador da Casa Real e confessor do rei D. Manuel, se deu conta que Bartolomeu não estava ali movido por qualquer entusiamo passageiro; o Espírito Santo o conduziu e o animava. Ainda assim, pô-lo à prova falando-lhe da austeridade própria da Ordem Dominicana. Deveria preparar-se para: abstinência perpétua, jejuns prolongados, vigílias frequentes, grande pobreza no vestir, limitações no dormir… confrontado com aquela desafiadora proposta de vida, foi esta a resposta de Bartolomeu: "Padre, trabalhos busco e aborreço mimos; para fugir de mimos que me sobejam e provar trabalhos que desejo e sei que para a salvação me são necessários, busco a vida religiosa. Não temo esses, nem me assustam outros maiores, porque há corpo fraco onde o coração é forte". Estava definido o programa de vida que o haveria de ocupar até ao fim dos seus dias.

O prior, completamente rendido, logo naquele dia lhe tomou os votos e lançou o hábito, admitindo-o ao noviciado. Professou como Dominicano no ano seguinte, a 20 de novembro, mantendo o nome de batismo e acrescentando "do Vale", que depois mudaria para "dos Mártires" por devoção à padroeira da sua paróquia de origem. Frei Bartolomeu dos Mártires distinguiu-se desde o princípio pela piedade e talento. Os estudos, que decorreram entre 1529 a 1537, completou-os de forma brilhante. Por isso, os superiores, o inscreveram entre os alunos do colégio universitário que o rei D. Manuel fundara no convento de São Domingos, sob o patrocínio de São Tomás de Aquino.

São Bartolomeu dos Mártires, com a vocação a que fostes chamado, enviou-vos Deus as pessoas que vos ajudaram a discerni-la e a dizer “sim”: vossos pais e avó paterno, os frades, o prior do convento… pedi a Deus que não faltem aos jovens que Ele hoje quer chamar para o serviço da messe, instrumentos aptos para o apoio humano e espiritual, o discernimento e a formação. Amem.

Meditação do 3ºdia: Teólogo e homem de oração icon-mostrar-texto.png icon-ocultar-texto


Salmo 32 (33)
Justos, aclamai ao Senhor,
     Os corações retos devem louvá-lO.

Salmo 102 (103)
Bendiz, ó minha alma, o Senhor
     e todo o meu ser bendiga o Seu nome santo.
Bendiz, ó minha alma, o Senhor
     e não esqueças nenhum dos Seus benefícios.

Com dezasseis anos incompletos, já professo, iniciou os seus estudos, em São Domingos de Lisboa, passando, depois da Lógica e da Filosofia, à Teologia e a Moral. Frei Luiz de Sousa, seu biógrafo diz: «Digo que estudava muito Frei Bartolomeu, e não peço perdão de o ter dito. Porque, para um verdadeiro filho e discípulo de São Domingos, não chegam os comentários aos tratados que se expõem nas aulas. O bom estudante é aquele que à oração e à contemplação dedica muito tempo, mais que aos livros e aos tratados. Assim o entendia o nosso glorioso fundador». Ora, Frei Bartolomeu, já em noviço, tinha começado a sentir o sabor divino do maná da contemplação onde teve como mestres, entre outros, São Bernardo e São Boaventura, deixando-se atrair cada vez mais por esta outra Teologia, a Mística, que consiste em não muito especular, mas em muito amar. Passava muito tempo em recolhimento, na sua cela. E, quando dela saía, sempre lia a frase que, em latim, tinha escrita na porta: «Encaminhem-se, Senhor, os meus passos para o cumprimento da vossa santa lei». Assim, alimentava nele, mesmo fazendo outras coisas, um permanente recolhimento. Não raro, impelido pelo Espírito, levantava os olhos ao Céu dizendo com grande devoção: «Santo Deus, Santo Senhor, louvam-Vos todos os anjos nas alturas, confessando que só a Vós é devida toda a honra e louvor, como Vos não hei de eu louvar em todo o tempo e lugar?» Logo que pudesse, recolhia-se na cela. Esta permanência em Deus, esta arreigada consciência de que estava sempre na presença de Deus, criava nele um intenso desejo de em tudo Lhe ser agradável, embora amiúde reconhecesse e pedisse perdão por tão mal corresponder ao muito que devia a Deus. Estes exercícios, que não dispensava, fizeram dele um místico e um respeitado teólogo. Assim, São Bartolomeu dos Mártires ia pondo em prática a divisa que adotou ao ingressar na Ordem dos Pregadores e que manteve nas armas de Arcebispo de Braga: Ardere et Lucere. Nolite conformari huic saeculo. “Arder em amor por Deus e pelos homens, ser luz para todos. Alumiar o mundo com o exemplo e a doutrina, não se conformando com o mundanismo”.

São Bartolomeu dos Mártires, aí no Céu, não vos alheais daquilo que se passa neste mundo; sabeis bem como, quotidianamente, somos confrontados com propostas sedutoras e dissipadoras duma necessária unidade de vida; intercedei por mim, para que aprenda a orar, a meditar, a contemplar, e a viver centrado em Deus. Amem.

Meditação do 4º dia: São Bartolomeu, obediente icon-mostrar-texto.png icon-ocultar-texto


Do Livro de Jeremias (18, 1-6)
Palavra que foi dirigida da parte do Senhor, a Jeremias, dizendo: “Levanta-te e desce à casa do oleiro e aí te darei a ouvir a minha palavra”. Desci, pois, à casa do oleiro e encontrei-o a trabalhar ao forno. Quando o vaso, que o oleiro ia moldando com a argila se lhe quebrava nas mãos, tornava a fazer outro vaso conforme aos olhos do oleiro parecia melhor. Então foi-me dirigida a palavra do Senhor, que dizia: “Porventura não poderei eu fazer de vós, casa de Israel, como este oleiro? - diz o Senhor. Como a argila nas mãos do oleiro, assim sois vós na minha mão, casa de Israel”.

Durante mais de vinte anos, São Bartolomeu dos Mártires ensinou Filosofia e Teologia. Partilhou o seu saber, como mestre, em Lisboa, no mosteiro da Batalha, Évora e Salamanca, onde, a 1 de maio de 1551, no Capítulo Geral dos Dominicanos, lhe foi conferido o título de Doutor e Mestre em Teologia. A par de muitos outros trabalhos, surgiu um pedido inesperado: o infante D. Luiz desejava dar ao seu filho D. António (que veio a ser o Prior do Crato) uma educação esmerada e, para isso, recorreu aos Dominicanos. Não se podia negar tal ajuda a um príncipe tão amigo da Ordem, pelo que os Superiores decidiram enviar para Évora, onde residia o discípulo, Frei Bartolomeu dos Mártires. Embora muitos ambicionassem esta tarefa, foi com muita mortificação que Frei Bartolomeu a aceitou. Estava no desempenho desta missão, quando o elegeram prior do convento de São Domingo de Benfica, pelo que teve de regressar a Lisboa.

Em 31 de março de 1558, morre D. Frei Baltasar Limpo, Carmelita, Arcebispo Primaz de Braga. D. Catarina, regente do reino na menoridade de D. Sebastião, seu neto, por indicação do seu confessor, Frei Luís de Granada, também provincial dos Dominicanos, escolheu para Arcebispo de Braga, lugar muito cobiçado, Frei Bartolomeu dos Mártires. Por obediência ao provincial da Ordem, aceitou o cargo, no qual foi confirmado pelo Papa Paulo IV, em 27 de janeiro de 1559. Foi ordenado bispo na igreja de São Domingos, em Lisboa, a 3 de setembro, e, no dia 8, recebeu o pálio das mãos do Arcebispo de Lisboa, D. Fernando Vasconcelos de Meneses. Em 4 de outubro de 1559 iniciou o seu ministério episcopal, em Braga. Ao luxo e ostentação do Paço Episcopal não ligou. Fez, porém, uma exigência: que o seu quarto de Arcebispo fosse uma réplica da austera cela do convento de Benfica. Com este retrato da sua cela, que nunca alterou enquanto viveu, temperava as ardentes saudades que dela tinha.

São Bartolomeu dos Mártires, sempre, pela estrita obediência aos Superiores, cumpristes fielmente tudo a que fostes chamado por Deus. Na nossa época, a obediência é uma virtude pouco valorizada, por isso vos peço: ajudai-me a vencer o orgulho e a soberba, aceitando de bom grado a autoridade daqueles que legitimamente a detêm. Amem.

Meditação do 5º dia: São Bartolomeu, o pai dos pobres icon-mostrar-texto.png icon-ocultar-texto


Do Evangelho de São Mateus (25, 35-40)
”Porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me; estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e foste me ver”. Então os justos lhe responderão, dizendo: “Senhor, quando te vimos com fome, e te demos de comer? ou com sede, e te demos de beber? E quando te vimos estrangeiro, e te hospedamos? ou nu, e te vestimos? E quando te vimos enfermo, ou na prisão, e fomos ver-te?” E, respondendo o Rei, lhes dirá: “Em verdade vos digo que quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes”.

Ao entrar no palácio episcopal arranjou uma forma de não ficar escandalizado com tanto luxo: fixou-se na santidade de muitos dos seus antecessores que lá moraram, dizendo: «Oh Arcebispos Santos que aqui vos agasalhastes! Oh Arcebispo pecador que aqui te atreves a entrar!», entrando então pelas faustosas salas. Porém, logo tomou a decisão de alterar a administração do Palácio de acordo com o seu estilo de vida austero. Em relação à sua pessoa, tudo continuava como quando estava no convento, inclusive, nunca deixou de usar o hábito Dominicano, por sinal, pelo muito uso, já bastante lustroso e puído. Porém, quando o Frei João de Leiria, uma espécie de ecónomo, lhe levou um alfaiate munido de uma peça de muito bom tecido, o Arcebispo, logo que se viu a sós com o artífice, mandou que daquele tecido fizesse vestidos para três pobres mulheres que ele já antes havia ajudado. Uma vida austera na alimentação e nos hábitos, a que não faltava o uso do cilício e outras formas de mortificação do corpo. Quando se sentava à mesa, logo separava metade daquilo que lhe serviam para dar aos pobres, fazendo de conta que tinha Cristo como seu hóspede, “visto Ele ter dito que fazíamos a Ele o que aos pobres fizéssemos”. Tinha junto a si pouca gente, mas gente boa e de bons costumes. Frei João de Leiria que tudo administrava com muita prudência, sendo os gastos tão poucos e as rendas algumas, sempre tinha de sobra trigo, centeio ou pão amassado para dar aos pobres. Como todo o dinheiro só passava por mãos de gente honesta, rendia tanto que até parecia milagre… Em finais de janeiro ofereceram ao Arcebispo duas belas lampreias. Alguém lhe disse que era costume, em cada ano, enviar as primícias das lampreias à rainha e que, para chegarem frescas a Lisboa, era preciso contratar quem as transportasse. O Arcebispo fez contas e verificou que o transporte saía caríssimo. Optou por vender as lampreias e, juntando o dinheiro da venda ao que poupou no transporte, deu-o aos pobres. Soube deste facto D. Catarina, que muito se alegrou por ter escolhido Frei Bartolomeu dos Mártires para Arcebispo de Braga.

Em todos os atos de governo, os pobres estavam sempre em primeiro lugar, aliás, conforme o ensino do próprio Arcebispo, no seu Catecismo: «É a caridade que torna o jugo do Senhor suave e leve; sem ela, de nada vale qualquer outra virtude. Nela se encerra tudo quanto Deus mandou, e tudo mandou por amor dela; e quem a tem, tudo tem; e quem a não tem, nada tem, nada lhe aproveita quanto tem. Deste vale de lágrimas para o lugar onde está Cristo, não há outro caminho senão o da caridade. A caridade, rainha de todas as virtudes, contém em si dois preceitos: um, do amor de Deus; e outro do amor ao próximo».

São Bartolomeu dos Mártires, que vivestes pobre para que aos pobres não faltasse o que, para vós, pudesse ser supérfluo, fostes exímios na prática da caridade, a virtude que permanece; eu vos agradeço o exemplo e peço a vossa intercessão para que saiba vencer em mim o egoísmo e avareza e, assim, possa percorrer o caminho que conduz à vida eterna. Amem.

Meditação do 6º dia: São Bartolomeu, testemunho vivo da Palavra que anuncia icon-mostrar-texto.png icon-ocultar-texto


1ª Carta de Pedro (1, 23-25)
Renascestes, não de uma semente corrutível, mas incorrutível: a Palavra de Deus que vive e permanece eternamente. Porque toda a carne é como a erva, e toda a sua glória como a flor da erva; seca-se a erva e cai a sua flor, mas a Palavra do Senhor permanece eternamente. Ora esta é a palavra que vos foi anunciada no Evangelho.

Homem notável pelas suas qualidades de espírito e de carácter, homem orante, penitente e amigo dos pobres. Levantava-se pelas 3 horas da madrugada iniciando um período de oração e estudo que ia até às 8 horas, altura em que se celebra a santa missa. Trabalhava no atendimento das pessoas e no governo da Arquidiocese até às 6 horas tarde. Depois, o período até às 11 horas da noite, hora em que se embrulhava nas mantas e dormia, dedicava-se às suas devoções particulares, mergulhando em Deus a Quem pedia perdão pelas suas faltas e pedia favores para o dia seguinte.

O Arcebispo ia também, pouco a pouco, tratando da vida espiritual daqueles que lhe foram confiados. Era sua convicção que o melhor para cultivar a virtude era a Palavra de Deus que, para ser escutada e produzir efeito nas almas, era preciso anunciar. Essa era a sua missão! Não a única, naturalmente, mas assim parecia, tal o fervor com que pregava. O seu estilo de pregar era bastante diferente do da maioria dos grandes pregadores… Deixou-se de floreados de retórica para falar terra a terra; não falava de assuntos interessantes nem de adocicava a Palavra para agradar ao auditório, mas ensinava doutrina segura. Mesmo no período em que o Inverno era mais rigoroso, saía para o desconforto das aldeias. Fica no lugar aonde ia pregar e levanta-se primeiro que ninguém. Depois, de joelhos, fazia as suas orações e, com lágrimas, pedia a Deus, que o iluminasse. A seguir, quase diariamente, antes de celebrar missa, recorria piedosamente e com muito arrependimento ao sacramento da confissão. Levava sempre consigo dois sacerdotes que sofriam muito com aquelas invernadas e com o ritmo que o Arcebispo, que tudo suportava desassombradamente, imprimia às visitas.

Caminhando sempre adiante, num dia de muito frio viu, no cimo de um penhasco, um pastorinho mal agasalhado. Parou e chamou-o para lhe dar algum consolo e indicar um abrigo… «Isso não – respondeu - porque se deixar de estar alerta pode vir um lobo e levar-me alguma ovelha. Depois que contas daria ao meu pai?». O Arcebispo comentou depois o episódio com os seus companheiros, considerando-o uma lição dada pelo pastorinho. E acrescentou: «Poderei eu, por causa do frio, deixar de acudir às minhas ovelhas?».

São Bartolomeu, bom pastor que vivestes da Palavra que anunciastes, a tempo e fora de tempo, por palavras e por obras; providenciai tempos de missão nesta cidade onde nascestes, transforme Lisboa numa enorme sementeira da Palavra de Deus e a boa semente frutifique no coração dos jovens. Amem.

Meditação do 7º dia: São Bartolomeu e São Carlos Borromeu: a receção das reformas de Trento icon-mostrar-texto.png icon-ocultar-texto


Primeiro Livro de Samuel (19, 1.4-7)
Saul comunicou a Jónatas, seu filho, e a todos os seus servos o seu plano de matar David. Jónatas falou a favor de David a Saul, acrescentando: “Não queira o rei fazer algum mal ao seu servo David, já que o seu proceder te foi sumamente benéfico. Pondo em risco a própria vida ele matou o filisteu e proporcionou uma grande vitória a todo Israel. Tu mesmo o viste e te alegraste. Por que, pois, querias tornar-te réu de sangue inocente, matando David sem culpa sua?” Saul atendeu ao apelo de Jónatas e jurou: “Viva Deus, que ele não morrerá!” Jónatas chamou David e contou-lhe todas estas palavras; a seguir levou-o a Saul junto ao qual ficou como antes».

D. Frei Bartolomeu dos Mártires visitou mais que uma vez a sua vasta Arquidiocese. Em janeiro de 1560 saiu de Braga, onde só regressou no início da Quaresma, para a visita pastoral às paróquias das terras do Barroso, Trás-os-Montes e Alto Minho. Encontrou muitas freguesias em lastimoso estado, pela falta de cultura do clero e ignorância religiosa do povo, mandou traduzir, para uso dos sacerdotes, a Suma dos Casos, do Cardeal Caetano, e ele próprio compôs, para os fiéis, um Catecismo da Doutrina Cristã, e um livro de Práticas Espirituais.

Em 24 de Março de 1561 partiu para Trento, onde chegou em 18 de maio, a fim de participar, como Primaz das Espanhas, na terceira e última sessão do Concílio de Trento (1562-1563). Nas suas várias intervenções, distinguiu-se pelo saber e zelo na reforma da Igreja, e edificou a todos pela sua santidade. Nas Atas das sessões é referido como «douto e religiosíssimo Prelado», «homem de grande santidade e religião».

Num dos intervalos das sessões conciliares, foi a Roma, onde se demorou dezassete dias, em visita ao Papa, que tinha muito boas referências do “bracarense” e muito o queria conhecer. O Papa Pio IV recebeu-o de forma bastante informal e durante aqueles dias os encontros repetiram-se, até nas refeições. Num deles, quando o Arcebispo expunha ao Papa o que pensava da necessária reforma do clero, entrou o cardeal Carlos Borromeu, Arcebispo de Milão e sobrinho de Pio IV, que, tomando-o pela mão disse ao prelado de Braga: «bracarense, aqui vo-lo entrego, este há de ser o primeiro que me haveis de reformar». Assim foi. Gerou-se entre os dois uma profunda amizade que terá contribuído muito para a santidade do Arcebispo de Milão. Voltou para Trento para assistir ao encerramento dos trabalhos conciliares. Rejubilou com a feliz conclusão do Concílio, e, numa carta de despedida a São Carlos, afirmou: «só falta empenharmo-nos com todas as forças para o aplicar». Depois de três anos de ausência, entrou o Arcebispo em terras de Portugal. Chegado a Freixo de Espada à Cinta, já da sua jurisdição eclesiástica, apeou-se da mula – havia sido um presente do Papa – ajoelhou e deu graças a Deus por tê-lo levado e trazido são e salvo. Dali até Braga, parava em cada igreja para pregar e crismar, como era seu hábito.

O vosso testemunho sacerdotal, Arcebispo Santo, abriu o coração de São Carlos Borromeu à graça de Deus que o converteu a Cristo e à missão; que a amizade gerada entre vós seja um incentivo à amizade e ao trabalho de equipa entre todos os sacerdotes e desse testemunho a Igreja cresça como mistério de comunhão. Amem.

Meditação do 8º dia: Humilde, mas intransigente com a mentira e a injustiça icon-mostrar-texto.png icon-ocultar-texto


Livro do Apocalipses (3, 15-15)
Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente; quem dera foras frio ou quente! Assim, porque és morno, e não és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca.

Bartolomeu era criança quando morreu D. Manuel I. A sua juventude, a entrada no convento, a sua formação académica e os primeiros trabalhos apostólicos, aconteceram no reinado de D. João III. Foi D. Catarina de Bragança, sua viúva, que assumiu a regência do reino durante a menoridade do seu neto, o rei D. Sebastião, que acabou por ter um papel determinante na vida de São Bartolomeu dos Mártires, ao escolhê-lo para Arcebispo de Braga. Quando Frei Bartolomeu dos Mártires foi ao Paço Real agradecer à Rainha a escolha, terá acontecido este curioso diálogo testemunhado pelo Duque de Aveiro: «A vossa bondade e clemência, Senhora, são conhecidos por todos os vossos súbditos; e só eu tenho motivos de queixa pela violência que contra mim usastes. Peço a Deus que vos perdoe o que fizestes. Receio, porém, que Ele, por isso, um dia chame a severas contas Vossa Alteza». Ao que a Rainha, sorrindo, respondeu: «Senhor Arcebispo, se à hora da morte nada mais pesar na minha consciência que a vossa eleição, morrerei muito em paz».

No governo da Arquidiocese, Frei Bartolomeu dos Mártires revelou-se, um verdadeiro e extraordinário Pastor pelo seu amor à Igreja e caridade para com os pobres. Também pela sua firmeza! Tanto para com o Papa como para o rei… Em virtude dos trabalhos do Concílio, teve o Arcebispo Santo de participar numa reunião de cardeais e bispos. A tradição mandava que Papa e os cardeais se sentassem e os bispos permanecessem de pé todo o tempo que durasse a reunião. Indignou-se o Frei Bartolomeu dos Mártires com este hábito secular da corte pontifícia e disso chamou a atenção do Papa, que mandou sentar os bispos. «Não sei que é isto, bracarense, que não vos posso negar nada», comentou Pio IV.

Terminado o Concílio, regressou à sua Arquidiocese tentando implementar as reformas preconizadas, começando pela criação do Seminário Conciliar de Braga, e ocupado nas visitas pastorais. Em 1580 morreu o cardeal-rei D. Henrique, que, em 1578, havia sucedido ao seu sobrinho neto, D. Sebastião, após o desastre de Alcácer Quibir. Com a morte de D. Henrique, Portugal entra na chamada “crise de sucessão”. Eram pretendentes ao trono, D. Catarina de Bragança, D. António Prior do Crato, e Filipe II de Espanha, casado com D. Maria, filha de D. João III e D. Catarina, por isso cunhado de D. Sebastião que, por sua vez era primo em 2º grau de D. António, filho natural de D. Luiz, irmão de D. João III. D. Catarina, neta de D. Manuel I, seria a predileta de D. Henrique na sucessão e D. António Prior do Crato o predileto do povo e, certamente, do Arcebispo Santo que foi, em Évora, seu professor. Apesar de tudo isto, Filipe II conseguiu os apoios da nobreza e do clero nas Cortes de Almeirim e, nas Cortes de Tomar, em abril de 1581, foi declarado rei de Portugal, com o título de Filipe I. D. Frei Bartolomeu dos Mártires, para não se ver envolvido em complicados assuntos que não eram do seu múnus pastoral, retirou-se para Tuy (Galiza), onde adoeceu. Contudo, decidiu não faltar às Cortes de Tomar. Entrou, na sala já preparada para o juramento do rei, com a Cruz Primacial alçada, o que motivou a reclamação dos Metropolitas de Lisboa e de Évora que consideravam que o Arcebispo de Braga não podia usar a Cruz fora da sua Província eclesiástica enquanto não estivesse resolvida a contenda com o Arcebispo de Toledo sobre o direito da Primazia. Indiferente à reclamação daqueles ilustres prelados, o Arcebispo Primaz tomou, com cortesia e autoridade, o lugar mais digno. Na altura própria recebeu o juramento de fidelidade do rei perante as Cortes. Tudo terminou com um solene cortejo que integrava Filipe I, encabeçado pela Cruz Primacial, diante da qual o Arcebispo de Braga, como Primaz das Espanhas, lançou a bênção pontifical. a todos.

São Bartolomeu dos Mártires, neste dia da novena quero a gradecer a Deus o modo como, renunciando a todas as honras pessoais, fostes firme perante os poderosos na defesa dos direitos da Igreja e dos mais pobres; alcançai de Deus a mesma graça para a hierarquia da Igreja, para que haja sempre com liberdade e firmeza face aos interesses do mundo. Amem.

Meditação do 9º dia: O trânsito do Arcebispo Santo icon-mostrar-texto.png icon-ocultar-texto


2ª Carta a Timóteo (4, 7-8)
Combati o bom combate, terminei a corrida, guardei a fé. Agora está-me reservada a coroa da justiça, que o Senhor, justo Juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos os que amam a sua vinda.

Com a aprovação do provincial dos Dominicanos, Frei Luiz de Granada, e com o consentimento unânime “dos nobres da vila, gente da governança e povo” começou a ser construído, em abril de 1563, o convento dos Dominicanos em Viana, onde, anos mais tarde se daria o trânsito do Arcebispo Santo. Em 16 de Abril de 1581, terminadas as Cortes de Tomar, perante as quais Filipe II de Espanha prestou juramento como rei de Portugal, São Bartolomeu dos Mártires, na altura com 67 anos, solicitou ao monarca a sua renúncia ao Arcebispado de Braga, que foi aceite. Enquanto a renúncia não foi confirmada pelo Papa Gregório XIII, prosseguiu nas visitas pastorais pela Arquidiocese, que governou durante 22 anos, de 1559 a 1581. Quando se encontrava numa visita pastoral, em 23 de fevereiro de 1582, foi informado de que já tinha sucessor, D. João Afonso de Meneses. Nesse mesmo dia recolheu ao convento de Santa Cruz, em Viana do Castelo, mandado construir por ele próprio com o dinheiro que poupou “em mais pajens e mais mulas”. A vida do Arcebispo no convento foi sempre a do mais observante religioso. Cumpria todas as regras da Ordem e a todos pedia que o tratassem como a um noviço acabado de ser admitido. Enquanto a débil saúde lho permitiu colaborava, celebrando missa e pregando nas igrejas das redondezas. Mas aproximava-se a hora da morte… O sacramento da Santa Unção foi administrado com toda a solenidade pelo novo Arcebispo de Braga, D. Frei Agostinho de Castro. Frei Bartolomeu, perfeitamente lúcido, pedia orações a todos os presentes para que aquele sacramento atuasse eficazmente na sua alma. Todos os presentes choravam; só Frei Bartolomeu estava alegre. Depois de rezarem as completas, levantou as mãos e os olhos ao Céu e rendeu o espírito ao Criador. Foi isto numa segunda feira, 16 de julho de 1590, tendo o São Bartolomeu 76 anos de idade. Os frades tiraram-lhe o velho hábito, que guardaram como relíquia. Vestiram-lhe uma túnica de lã branca e um hábito e escapulário novos. Os cónegos colocaram-lhe na cabeça uma mitra dourada e, no anelar da mão direita, o precioso anel de ouro que tinha sido oferta do Papa Pio IV. O rosto do Arcebispo tinha um ar sereno que bem expressava a alegria da partida.

É impossível não recordar aquilo que São Frei Bartolomeu dos Mártires ensina no seu Catecismo: «E não lhe faltam asas, como diz Santo Agostinho, porque para isso te deram inteligência e vontade; para isso te deram fé e amor, e para isso te deram os dois preceitos de amor de Deus e do próximo, para que, com duas asas, voasses até Ele. Ânimo, pois! Em quaisquer pedras de penas e tribulações de que te sentires ferido, levanta os olhos da alma ao Céu, vê Aquele que está à direita do Pai, e regozija-te confiando n`Ele. […] Consola-te também com estas palavras de São João: «Temos, diante do Pai Eterno, um advogado, Nosso Senhor Jesus Cristo, que, enquanto homem, intercede por nós, tanto para nos alcançar perdão de nossos pecados, como para nos alcançar vitória em nossas tentações».

Em 1702 o Arcebispo D. João de Sousa mandou organizar o processo relativo à heroicidade das suas virtudes e aos milagres atribuídos à sua intercessão. Foi declarado Venerável por Gregório XVI em 23 de março de 1845. O Papa São João Paulo II reconheceu em 7 de julho de 2001 o milagre proposto para a beatificação. Foi pelo mesmo Papa beatificado no dia 4 de novembro de 2001; a data escolhida tem um significado especial: é a Memória litúrgica de São Carlos Borromeu, com quem trabalhou arduamente na receção do Concilio de Trento. Em julho de 2019, o Papa Francisco declarou-o santo, graça que foi acolhida em solene celebração que teve lugar no dia 10 de agosto desse ano, na Catedral de Braga. A sua festa litúrgica celebra-se a 18 de julho.

São Bartolomeu dos Mártires, com aquelas asas feitas de inteligência e vontade, de fé e de amor, voastes ao encontro do Senhor, a quem amastes e servistes; por isso a Igreja vos glorificou e recorre à vossa intercessão; no Céu, na contemplação da Santíssima Trindade e bem junto a Maria, Mãe da Igreja, a quem sempre recorreste como a Senhora dos Mártires, suplicai-lhes para toda a Igreja um novo ardor missionário. Amem.


Cónego Armando Duarte
Basílica dos Mártires, 9 de Julho de 2022